A Arte e o Espírito    (O Julgamento)
16ª Parte - O Perjúrio. Angélica e o seu Drama Familiar
por Jorge Queiroz

 

CENA 37 ACENDE-SE A LUZ NO CENTRO DO PALCO. TODOS MENOS PAULO ESTÃO NO TRIBUNAL. MARIANA PÕE AS MÃOS SOBRE A CABEÇA DE ANGÉLICA QUE CHORA MUITO DE ARREPENDIMENTO. A ADVOGADA CONTINUA COM AS PERGUNTAS

ANGÉLICA O seu Paulo é um santo!...É um santo!(chorando
muito).Ele não me estuprou, não me
estuprou...(Chora mais ainda)
  (Começa um burburinho no palco e na platéia)
ADVOGADA (Incisiva) A senhorita foi avisada que poderia ser processada por perjúrio, não foi? (Angélica confirma com a cabeça) Eu tenho mais uma pergunta a fazer: A senhorita mentiu também quanto à gravidez?
ANGÉLICA Não... Não menti
ADVOGADA
Então, se não foi o meu cliente, o senhor Paulo, o responsável e com certeza também não foi o “Espírito Santo”, quem foi então que a violentou?
PROMOTOR Protesto! A brilhante advogada já conseguiu o que queria, não há mais necessidade de constranger a testemunha!
ADVOGADA Meritíssimo não tenho a intenção de constranger essa pobre criatura, quero apenas ajudá-la. Sinto que a violência ocorreu de fato e que, por medo ou por amor à sua mãe, ela não nos contou a verdade.
JUIZ Como testemunha nesse caso, a senhorita já está dispensada, mas se tiver ainda alguma coisa a acrescentar que possa justificar o seu delito de perjúrio, por favor, nos diga.
ANGÉLICA (Chorando muito) Eu não podia falar a verdade! Tinha que mentir! Estava tão feliz pela recuperação da saúde da minha mãezinha, que não tinha o direito de dar a ela um desgosto tão grande. Se minha mãe soubesse da verdade, seria sua morte, mas como esconder uma gravidez? Impossível. Logo, ela iria perceber e eu teria que dizer quem era o pai, por isso menti e coloquei a culpa no seu Paulo. Ele é um homem tão bom, eu sei que um dia ele vai me perdoar... Quem me violentou... Foi o meu padrasto (aumenta o choro) ... Eu não podia contar para minha mãe, ela morreria de desgosto e vergonha. Meu padrasto voltava para casa à noite, completamente bêbado, minha mãe estava inconsciente e eu sem ter a quem recorrer... Foi terrível! Ele me estuprou na própria cama da minha mãe, ao lado dela e eu sem poder reagir, sem poder gritar, foi terrível, terrível!
  (A platéia volta a reagir. Todos falam ao mesmo tempo. O juiz intervém)
JUIZ Silêncio! Silêncio! Silêncio!
 
B. O.

CENA 38 SURGE VT NO FILÓ, GABRIEL EM CENA SURGE MARIANA.
MARIANA Que vida difícil dessa menina, Mestre. Uma mãe doente, estuprada pelo padrasto, e ainda acusada de perjúrio.
GABRIEL É. Mas como eu disse antes todos temos atenuantes, não justifica mas às vezes explica.
MARIANA O que o Sr. quer dizer com isso?
GABRIEL Essa menina foi movida pelo amor à sua mãe e ódio ao Paulo dois sentimentos muito forte e perigosos quando não administrados corretamente.
MARIANA O amor está claro, mas, o ódio ao Paulo?
GABRIEL No caso de Paulo, essa testemunha também é um cobrador. Angélica, aquela pobre menina que o acusou de estupro, foi vítima de Paulo em outra vida. Ela era aquele homem, "Marcel", que seduzido pelo poder do sexo e pelo magnetismo de Gabrielle, que era Paulo quando mulher acabou por suicidar-se. Voltou agora como mulher, vítima do seu próprio padrasto, que havia sido sua esposa abandonada na outra encarnação. Angélica tentou dessa vez, pagar a Paulo na mesma moeda. Como uma linda mulher, foi uma tentação para Paulo, um grande teste, para ele e para ela.
  (Gabriel faz um movimento e Mariana desaparece. Em seguida desaparece o VT. O juiz começa a gritar mesmo no escuro)


Perguntas Respondidas