Páginas de Luz    (Mestres da Humanidade)
Krishna
por Narcí Castro de Souza

No início da Kali-Yuga, cerca do ano 3.000 antes da nossa era, predominava na Terra a injustiça, a ambição e o ódio.

Ao norte da Índia, à margem de um largo rio, erguia-se Madura, uma cidade poderosa. Lá reinava Cansa, ambicioso monarca que desejava submeter a seu comando toda a Índia. Aliou-se a Calaieni, senhor dos montes Vindia, poderoso rei dos Iavanas. Calaieni rendia culto à deusa Kali. Era um mago negro.

Para firmar a aliança, Cansa casou-se com a bela Nisumba, filha do terrível mago. Cansa apaixonou-se pelos encantos ardentes de Nisumba e a ela tornou-se totalmente submetido.

Planejaram ter um filho que seria o herdeiro de todas as terras conquistadas, mas Nisumba não engravidava. O pai de Nisumba esgotou todos os seus poderes oferecendo mil sacrifícios à deusa Kali para sua filha gerar um neto. Tudo inútil. Então, o rei de Madura, Cansa, ordenou que diante de todo o povo da cidade fosse executado o sacrifício do fogo e se invocassem todos os devas.

Ajoelhados em torno do fogo, os sacerdotes entoando cânticos invocaram o grande Varuna*, Paralda, Gob, Agni e Indra. Nisso, a rainha Nisumba, ricamente ornamentada, com o olhar brilhante como dois relâmpagos e num gesto desafiador, atirou perfumes sobre as chamas crepitantes, ao mesmo tempo em que seus lábios, que se assemelhavam à polpa de um fruto vermelho, pronunciavam uma fórmula mágica em um idioma desconhecido. A fumaça tornou-se espessa, as chamas torceram-se e os sacerdotes exclamaram: ? Ó rainha, não foram os devas e sim os espíritos trevosos que passaram sobre o fogo! O teu ventre continuará estéril!

Cansa, que também se encontrava junto ao fogo, pergunta aos sacerdotes de qual de suas mulheres nascerá o imperador do mundo.

Nesse momento, Devac, a irmã do rei, que era uma virgem de coração bondoso e puro, ajoelha-se junto ao fogo e suplica aos devas que dêem um filho a seu irmão e à rainha Nisumba. Um dos sacerdotes, então, olha para a chama e para a virgem e estupefato declara: Ó rei de Madura, nenhum de teus filhos será o imperador do mundo! Ele nascerá do ventre da tua irmã que vês aqui!

Cansa ficou desolado e Nisumba, colérica, sussurrou ao marido:

? Devac deve morrer imediatamente!

? Como matar minha própria irmã?

? Se não o fizeres, me perderás!

? Não posso viver sem ti. Então, que seja feita a tua vontade! Mas não me deixes!

Naquela mesma noite, um dos sacerdotes viu em sonho que Devac corria perigo de vida e correu a avisá-la em seus aposentos, ordenando-lhe que fosse refugiar-se entre os anacoretas da floresta.

Devac, disfarçada, foge do palácio sem ser vista por ninguém. Quando de manhãzinha os soldados invadiram seu quarto para matá-la, não mais a encontraram.

Cansa interrogou os guardas que lhe informaram que as portas da cidade permaneceram fechadas durante toda a noite, mas que tinha visto em sonhos uma fenda aberta na muralha por um raio de luz e por ele passar uma mulher que seguiu aquele raio.

Cansa amedrontado percebeu que um poder invisível protegia Devac. E seu coração, cheio de medo, odiou mortalmente sua irmã.

Devac penetrou na floresta, alimentando-se de mangas e saciando a sede nas águas das fontes. Andou o dia inteiro, até encontrar um lago coberto de lótus. Além erguia-se o cimo branco de gelo do monte Meru, a sobressair-se na floresta luxuriante. À margem do lago azul, Devac viu um anacoreta idoso que parecia esperá-la junto a um bote. Acenou-lhe para que entrasse no bote. Atravessaram o lago e foram recebidos pelo rei dos anacoretas que, ao ver a princesa, levantou-se e a saudou dizendo: ? Seja bem-vinda, tu que fostes escolhida pelo Mahadeva para gerar o Raio de Luz Divina que receberá forma humana para reinar sobre os homens nesta época de tanta dor, trevas e misérias!

Devac é, então, conduzida ao eremitério. Em companhia de mulheres piedosas, prepara-se através de banhos perfumados e orações. É vestida como se fosse uma rainha e recebe autorização para, quando desejasse, passear na floresta.

Um dia encontra em seus passeios um lindo jovem anacoreta em oração junto a uma fonte rodeada de lótus cor-de-rosa. Olham-se com extrema ternura, duas almas gêmeas que se reencontram e se unem outra vez envoltos no mais puro e verdadeiro amor.

Devac vê, então, seres alados em coro saudarem-na: "Glória a ti, Devac! Através de teu ventre, Ele virá, coroado de luz. As estrelas empalidecem diante do teu esplendor. Ele virá! Derrotará a morte! Rejuvenescerá o sangue de todos os seres! Será mais doce do que o mel e a ambrósia, mais puro do que o cordeiro imaculado e os lábios de uma virgem! À sua vinda todos os corações estremecerão de amor! Glória! Glória! Glória a ti, Devac!"

Após sete luas, o chefe dos eremitas, aquele mesmo que a recebeu no primeiro dia, apresentou-se a Devac dizendo: "Cumpriu-se a vontade dos deuses. Tu concebeste pura de coração, no amor divino. Nós te saudamos, virgem e mãe. Há de nascer de ti aquele que será o salvador do mundo. Mas teu irmão, Cansa, anda à tua procura para te matar e a teu filho. Fuja! Os nossos irmãos te guiarão até os pastores que vivem nas faldas do Monte Meru, sob os cedros odoríferos no ar puro do Himavant. Lá, darás a luz a teu filho divino. Seu nome será Krishna, o Sagrado! Agora vai-te sem temor. Nós velaremos por ti!"

Krishna nasceu e cresceu entre os pastores e destacava-se dos outros meninos. Seu olhar derramava luz e sabedoria, todos o respeitavam e amavam. Às vezes, era encontrado na floresta brincando com pequenas panteras que, junto a ele, amansavam e tornavam-se dóceis corno gatinhos. As feras não lhe faziam mal. Revelava em suas palavras uma maturidade e força que não se coadunavam com sua pouca idade.

Dele, especulavam, se era um gênio? Um deus? Sentiam, porém, que ele viera para trazer luz e felicidade e, assim, o amavam e o protegiam.

Muitas aventuras vivenciadas em sua juventude são contadas sobre esse grande ser. Seus ensinos acham-se registrados no Bhagavad GÎTÂ, que literalmente significa a Divina Canção. Nesses ensinos, ele relata a necessidade de o homem despertar para as verdades do espírito, de luta incessantemente em sua natureza interior para dela tornar-se senhor. Desse sagrado livro, que se pode intitular Evangelho dos Hindus, colhemos algumas pérolas:

"A fé é o movimento da alma à procura da salvação, e sua manifestação chama-se "culto divino" ou "culto religioso".

"O homem pode procurar a salvação em dois caminhos: no "exterior", contentando-se com ritos ou um salvador externo; e no "interior", quando reconhece a presença do salvador no âmago do seu próprio ser espiritual."

* * *

"Deus está sempre presente em tudo, vivificando e iluminando todos os seres. Quem se deixa iluminar pelos raios da Sabedoria, torna-se sábio; a Sabedoria Divina nele é uma força viva que o conduz ao conhecimento da Imortalidade."

* * *

"Fixa tua mente em mim, sê-me devoto; serve-me, prostra-te diante de Mim e, desse modo, chegarás até Mim. Essa é a pura verdade, Eu te declaro, pois és Meu muito amado."

"Desiste de todas as obrigações religiosas e torna-me como teu único refúgio. Eu te libertarei de todas as dificuldades. Não te aflijas."

* * *

"Eu, ó príncipe, Sou o Espírito que reside na consciência de todos os seres e cujo reflexo é conhecido por todos como "Ego". Eu sou o princípio, o meio e o fim de todas as coisas."

"Finalmente, lembra-te de que é melhor cumprir a própria tarefa, ainda que seja humilde e insignificante, do que querer fazer a tarefa de outro, por mais nobre e excelente que seja. É melhor morrer no cumprimento do seu dever, do que viver negligenciando-o e querendo fazer o que a outros compete fazer."

1 - KRISHNA foi uma encarnação anterior de Jesus.

2 - KALI-YUGA - Idade Negra ou época em que reinam as trevas. Essa época está findando no período atual. A Terra prepara-se para entrar na Idade do Ouro ou Época de Luz quando o bem e a paz prevalecerão.

3 - VARUNA - Deva que comanda o elemento Água e os elementais da água: ondinas, sereias, mereidas.

4 - PARALDA - Deva que comanda o elemento Ar, os ventos e os elementais do ar: silfos.

5 - GOB - Deva do elemento Terra, comandante dos elementais da terra: gnomos, duendes , elfos, fadinhas.

6 - AGNI - Deva do elemento Fogo, comandante dos elementais do fogo: as salamandras.

Deva é uma palavra sânscrita formada da raiz DEV (=luz). Logo, deva é um ser de luz, que também pode designar Anjo. Os devas pertencem a uma hierarquia de seres excelsos, a uma hoste que utiliza nosso planeta como campo de evolução, paralelamente a nós, os homens. Evoluem sem dor nem sofrimento porque não destroem nada para viver, só constroem. Seus corpos mais densos são formados de matéria etérica do plano físico. Alguns têm seus veículos mais densos formados de matéria do plano astral. E outros só conseguem descer ao plano mental.

Da mesma raiz DEV (=luz), surgiu a palavra "dia" e a palavra que designa o Ser Supremo: "Deus".


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