Conquistando SerenIdade    (Educação Gerontológica)
A Montanha-Russa de Vovó
por Liliane Bruno

Muitas vezes, fico impressionada com o impacto que alguns filmes exercem sobre mim. A sétima arte convida meu pensamento para um passeio a lugares distantes, exóticos e até futuristas, em várias ocasiões. Por outro lado, o cinema também provoca diferentes reações, ao fazer-me refletir sobre cenas comuns de nosso cotidiano.

Há um filme dos anos 90, cujo título em inglês foi traduzido como "O tiro que não saiu pela culatra", que acho muito interessante. Ele aborda os dramas pessoais dos integrantes de uma família comum, de modo pouco comum, e mostra as fragilidades, vicissitudes e angústias que permeiam as relações familiares. Revela, também, detalhes dos momentos de crise que acontecem em qualquer ambiente doméstico.

Cada personagem possui sua importância na trama, seu espaço, sua identidade e sua idade. Dentre as figuras coadjuvantes no roteiro do filme, uma chamou minha atenção por sua criatividade e espontaneidade. A vovó.

Ao longo do filme, vovó surgia como uma pessoa alheia ao ritmo da família, vivendo num mundo particular, repleto de lembranças e carente de sons. Vovó já não ouvia frases inteiras, e por isso parecia estar sempre à procura da última sílaba das palavras. Apesar disso, surpreendentemente, partiu de vovó a fala mais interessante da trama. De modo meio descabido, e numa hora inesperada, vovó inicia seu relato contando que, quando jovem, gostava de ir ao parque de diversões. Enquanto muitos adoravam brincar no carrossel, seu brinquedo preferido era a montanha-russa. Assustadora, desafiadora e cheia de altos e baixos. Emocionante, ao contrário do carrossel e sua mesmice.

Lá pelas tantas, muitas cenas depois, podemos compreender a dimensão das memórias de vovó. Se a vida fosse um parque de diversões, que brinquedo iríamos escolher como nosso preferido? O carrossel, com sua rota conhecida, seu roda-roda monótono e seu espaço limitado? Ou a montanha-russa, com uma surpresa a cada curva e sua velocidade desnorteante?

Enquanto o carrossel tenderia a estagnar nossas emoções, a montanha-russa, por outro lado, poderia ser considerada como um teste para nossos sentimentos e nossa capacidade de mantê-los sob controle.Com seu jeito aéreo e engraçado, a vovó do filme nos ensina que temos a liberdade de escolher nosso estilo de vida: carrossel ou montanha-russa.

Podemos nos habituar ao girar previsível do carrossel ou nos aventurarmos seguindo o trajeto surpreendente do trenzinho da montanha-russa. A vida pode ser sempre igual, mas também pode ser um desafio a cada passo. Uma vez optando pela montanha-russa, temos que estar cientes de que precisaremos de muita coragem para superar nossos medos, flexibilidade para acompanhar o ritmo do trenzinho, especialmente nas curvas mais perigosas, e, sobretudo, necessitamos acreditar que a viagem valerá a pena.

A vida, como a montanha-russa de vovó, é cheia de emoção e surpresa a cada momento. Possui altos e baixos. Há momentos em que o mundo parece estar de pernas para o ar. Mas a vida é sempre um espetáculo que, para ser vivenciado integralmente, requer muita atenção. A mesma atenção que a família de vovó achava que ela já não possuía, mas que ela mostrou ainda ter, através de uma recordação preciosa de seu baú de memórias.

Sempre vale a pena ouvir alguma vovó, real ou fictícia, falar da vida, de coisas vividas e sentidas pois, afinal, todos passamos pelos mesmos caminhos, e viajamos no mesmo trem.


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