Compartilhando    (Manvantara)
Reflexão 12
por Ilda Castro



Minha mente está aberta, escancarada
para que - neste momento -
eu deslize dentro do meu pensamento
e, através de processo difícil, doloroso, longo, lento
- aparentando não ter fim -
resgate os cadáveres que guardo - insepultos - dentro de mim
e, num fogo vivo, firme, ardente,
queime, creme um a um
e, logo, não mais existam, sejam só fumaça
- leve, clara, inodora, levada pelo vento que passa -
me permitindo sentir o que o mundo sente.
Ser uma nota na sinfonia dos astros,
matar a minha sede de infinito,
saciar a minha fome de amplidão.
Sentir-me - eu toda - só coração
a bater tranqüilo, alegre, ritmado -
consciente de que na casa do Pai há muitas moradas,
sereno ao saber que uma lhe é destinada.
E o espaço aconchegante me envolve e abraça.
Não tenho corpo. Ele é o próprio Espaço
- e, como tal, ilimitado.
Eu, essência, poeira cósmica
- misturada, dissolvida, diluída -
tenho certeza de que agora
o Universo sonha todos os sonhos meus
porque ele, eu - nós - fazemos e somos a Vida.


Perdão


Vejo-te tão frágil e delicada!
Num muro de fortaleza, disfarçada,
conduzes pessoas que te idolatram.
Mostra-te! Deixa que vejam tuas feridas
para que possas somente ser amada.
Eu te conheço há muitas eras
mas perdida nos milênios das saudades
não lembro bem quem eu fui, quem tu eras.
Contudo, tenho uma certeza - uma só -
apesar de sofrer metamorfose constante,
tenho plantada em meu íntimo, no coração,
muito amor, amizade - antes sofrida - agora cantante.
Olho para ti com ternura e carinho
a sentir que, cansada, queres mãos
que segurem as tuas com firmeza
a trilharem - juntas - um mesmo caminho.
Há muito tempo contraí uma dívida.
Dívida que atualmente preciso resgatar.
Dívida que - desmemoriada - nem tenho noção.
Mas - Amiga - será que assim posso falar-
Venho através dos séculos - humildemente -
te pedir Perdão...


Poeta

Meus dedos, minhas mãos
têm vida própria, singular.
Para escrever, versejar,
não me é necessário isolamento, concentração.
Basta que me aquiete e deixe transbordar
tudo o que guardo no peito, no coração
pois o poeta - o verdadeiro -
não deixa ser filtrado pela mente
o que quer exteriorizar - ele é inteiro -
e sangra e ri no papel tudo o que sente;
assim, refulgem estrelas a seu redor.
O poeta tem muitos mil olhos
porque enxerga, sente
com cada célula, com cada poro.
Ah, poeta! De sonhos - tecelão;
as palavras trabalha como minucioso artesão.
Levado por ventos sem pouso - andarilhos -
seu espírito não caminha sobre trilhos
- não se deixa tolher, limitar, prender -
e voa leve pelo espaço, pelo ar.
Poeta-criança faz um completo curso d-alma
para que, nas tempestades das emoções,
que sempre o fustigam,
mantenha o equilíbrio, a calma.
Poeta- Normalmente tem os lábios selados
que nada conseguem dizer.
Comunica-se com o olhar, o corpo, o toque de mão -
murmurando, sussurrando um grito que não sabe dar
- mas também não consegue conter -
O poeta, com toda sua sensibilidade,
transforma branca folha de papel
em jardim de mil flores coloridas
- em inferno e céu -
ou em deserto árido, aparentemente sem vida.
Poeta escreve por transbordamento
- de alegria, de esperança, amor, amizade, fé - de sofrimento -
que, se não fossem libertados, colocados para fora,
quando aflorassem a qualquer hora
o envolveriam, oprimindo, a sufocar.
Ah, o poeta! De coração criança, velho, antigo
recebe do Amigo muito do seu cantar.
O poeta é, então, um arauto.
Arauto dos que estão aprendendo - ou ensinando - a amar.


Perguntas Respondidas