A Arte e o Espírito    (O Julgamento)
Segunda Parte - Santo ou Demônio
por Jorge Queiroz

 

CENA 4  ACENDE-SE A LUZ NO CANTO DIREITO DO PALCO.
  Paulo grita desesperadamente de dor, ele está sendo brutalmente espancado por homens vestidos de negro, de mãos brancas com panos cobrindo o rosto. Durante o espancamento, ouvem-se muitos gritos medonhos vindo das sombras. A luz se apaga na cela de Paulo, cada vez que se acende, Paulo está sendo surrado de forma diferente. Hora com chicotes, hora num tronco de escravos, hora sendo apedrejado, hora sendo crucificado, hora surrado com violência, hora enforcado.
  Como imagens em flashes fotográficos, essas cenas vão se sucedendo, mostrando inúmeras formas de torturas.(Toda essa seqüência pode ser realizada, com efeito, de luz ou em projeções de sombra). Os homens gritam sucessivamente enquanto maltratam Paulo. Nos períodos de mudanças dos quadros da tortura, os gritos dos homens e de Paulo permanecem, mesmo no escuro. Paulo geme e grita de dor o tempo todo.

PAULO (GRITANDO) - Aiii ! Eu não suporto mais essa cruz! Meu Deus! Eu quero morrer, eu quero morrer (chorando de dor) meu Deus me leva daqui. Por misericórdia eu não agüento ... Me leva daqui aiiii !
HOMEM 1 Vamos acabar com você, Demônio!
HOMEM 2 Confessa... Confessa que você tem um pacto com o Diabo.
HOMEM 3 Você vai apanhar até morrer! Daqui você só sai
Morto.
HOMEM 2 Vamos ver o quanto você resiste. Vamos ver quem
realmente você é: Santo ou Demônio!
HOMEM 1 É um demônio maldito, por isso vai morrer de pancada.
HOMEM 3 Não adianta pedir socorro, ninguém te ouve, você é nosso.
HOMEM 1 Grita cão do inferno! Você nunca mais vai matar ninguém com a sua bruxaria.
HOMEM 2 Vamos acabar com a sua raça, depois vamos te jogar para os porcos te comerem!
HOMEM 3 Bruxo desgraçado! Quantos você enfeitiçou? A quem você serve, Satanás?
HOMEM 1 Você nunca mais vai enfeitiçar ninguém. Nenhuma criança vai morrer mais pelas tuas mãos!
  (Durante toda a seção de tortura, Paulo grita desesperadamente de dor e suplica a Deus que o leve).

B. O.
CENA 5 A LUZ SE ACENDE NO CANTO ESQUERDO DO PALCO.
  Surge uma turba de pessoas encolerizadas, todos querendo matar Paulo. O ruído é de uma multidão pronta para um linchamento. Essa cena em silhueta poderá ser realizada por apenas alguns atores e vários bonecos ou recortes cenográficos. Todos devem estar com os rostos cobertos por panos ou chapéus. Os gritos de ódio se sucedem e mistura-se aos gritos de dor de Paulo, que continua sofrendo torturas. A turba no canto esquerdo grita:

HOMEM 1 Vamos invadir a cadeia! Arrancar de lá esse bruxo!
MULHER Vamos queimá-lo na fogueira como se fazia no passado.
HOMEM 2 Justiça! Vamos matá-lo!
MULHER Apedrejá-lo até morrer!
HOMEM 3 Se não nos derem esse demônio, nós vamos destruir tudo!
MULHER Justiça! Justiça! Vamos pegá-lo!
  (A turba continua gritando, os torturadores e Paulo também, o barulho é ensurdecedor, a luz dos sets se alternam, quando o da direita está com luz frontal o da esquerda está apenas com contra luzes, nesses momentos as pessoas desse set movimentam-se como se estivessem em câmera lenta, quase num balé macabro. Esse jogo cênico dura pouco tempo e é interrompido por um grito longo e muito alto de Paulo, a cela de Paulo se ilumina intensamente e o lado esquerdo se apaga rapidamente. A sonoplastia com um forte acorde realça o momento.)
PAULO Aiiii... Meus Deus, por misericórdia me leve daqui, me liberte, aiii ...!
  (Paulo desmaia. Todas as luzes se apagam, ficando apenas um foco em Paulo. Depois).

B.O. TOTAL.
CENA 6 ACENDE-SE A LUZ NO CENTRO DO PALCO.
  Um grupo de pessoas invade a cena clamando por justiça. A principio parecem enfurecidas como a turba que queria linchar Paulo, mas esses, na verdade, são “defensores” de Paulo. Algumas mulheres com seus filhos no colo proclamam a santidade de Paulo. Homens amparados por muletas agradecem por estarem caminhando. Outro de bengala na mão, diz que Paulo curou sua cegueira. Várias pessoas surgem dando testemunho dos milagres de Paulo. Eles falam para a platéia.
TODOS Justiça! Justiça! Queremos justiça! Queremos justiça!
MULHER (Com o filho no colo) Eu exijo justiça (emocionada). Esse homem... esse homem... ele é um santo. Meu marido tinha câncer e ele o curou! Os médicos haviam dado menos de 30 dias de vida para ele, quando apareceu esse “Santo” homem e cortou, retirou o tumor e hoje, já faz mais de seis meses que ele não sente nada! Esse homem é um Santo! Um santo... Libertem esse homem, justiça... justiça...
  (todos repetem: justiça, justiça...)
HOMEM (Com muletas) Foi ele... Foi graças a ele que eu voltei a andar; de muleta é verdade, mas eu estou curado!
Depois de ficar preso a uma cadeira de rodas por doze anos. Foi um milagre... Seu Paulo é um Santo... um Santo... Eu quero justiça, libertem esse
homem, justiça...
TODOS Justiça! Justiça!
  Enquanto no centro do palco todos pedem por justiça, uma luz tênue acende no canto direito mostrando Paulo desmaiado e amarrado nas grades.Durante a última parte do texto essa luz vai se apagando lentamente.

B.O.


Perguntas Respondidas