A Arte e o Espírito    (O Julgamento)
27ª Parte - Paulo e o Gosto Amargo do Poder
por Jorge Queiroz

 

CENA 43 ACENDE-SE A LUZ NO LADO DIREITO DO PALCO. PAULO EM SUA CASA CONVERSA COM ANTÔNIO
ANTÔNIO E então deputado, pronto para a eleição?
PAULO As coisas mudaram Antônio, não quero mais saber de política.
ANTÔNIO Mas por quê? Só porque temporariamente o teu eleitorado se afastou? Agora tudo voltou ao normal, teu povo está aí fora! São centenas, milhares de votos esperando apenas que você os oriente! Você deve isso a eles; como pastor das almas, deve guiá-los no caminho certo, basta apenas que você diga a eles em quem devem votar e eles seguirão cegamente às suas ordens e você vai sentir "o gostinho do poder".
PAULO
Eu já senti Antônio... e.., o gosto que fica depois é muito amargo. Se para construir meu hospital for preciso provar de novo o poder, eu dispenso. Talvez eu deva me contentar em curar os doentes aqui mesmo, nessa casa simples, nesse galpão humilde. Se Jesus nasceu numa estrebaria, por que eu merecia maior luxo?
ANTÔNIO Entendo. Quer dizer que você já está roendo a corda! Será que não percebe a oportunidade que está perdendo? Hoje você estará na Assembléia Legislativa, amanhã você pode estar no Congresso Nacional, quem sabe num cargo mais alto ainda!
PAULO Quanto mais alto eu estiver, maior será o tombo. Deus não deu asas às cobras, por que me daria? Não passo de um homem simples e já tenho uma missão muito espinhosa para cumprir. Não careço de poder nenhum! O poder de conduzir esse povo não é meu. É de Deus e só agora eu percebi isso.
ANTÔNIO Tudo bem! Se você quer assim não posso fazer nada, mais ao menos você deve alguma coisa a mim e ao partido! Você deverá nos indicar e nos apoiar nas próximas eleições!
PAULO Impossível! O meu voto será secreto e intimamente apoiarei aquele candidato que realmente se disponha a ajudar o povo, sem nenhum compromisso partidário.
ANTÔNIO Isso é traição!
PAULO Pense o que quiser! Só devo fidelidade a Deus.
ANTÔNIO

Você não pode fazer isso! Não pode nos abandonar na reta final da nossa caminhada.

PAULO Meu caro Antônio, a minha caminhada está só começando.
ANTÔNIO Você pensa que pode cometer uma traição dessa e ficar impune?
PAULO Claro que não, eu já traí minha própria e verdadeira causa e já fui punido, por isso, espero me redimir dessa traição pelo resto da minha vida.
ANTÔNIO

Você está brincando! Não tem idéia do que somos capazes de fazer! Nós podemos destruir você de uma hora para outra, num piscar de olhos.

PAULO Eu sei. Acredito! O poder torna os homens fortes! E eles acreditam ser semideuses. Mas só A Deus é dado o direito de criar e destruir e nada mais me fará trilhar novamente o caminho ilusório do poder.
ANTÔNIO Será que você não entende, sem o seu apoio não conseguirei me eleger!
PAULO Você não precisa do meu apoio. Se apóie em Deus e nada te faltará!
ANTÔNIO

Maldito! Mil vezes maldito! Eu vou me vingar de você, eu juro, vou me vingar de você!

PAULO O gosto da vingança é quase tão amargo quanto o gosto do poder.
ANTÔNIO Vou te destruir Paulo! Eu juro... vou acabar com você
  B. O.


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