Em Busca da Verdade    (Suicídio - Uma idéia que não vale a pena)
Motivos para o Suicídio - Frustração Amorosa
por Gustavo Martins

O amor é uma benção de Deus, amar é maravilhoso, é o sentimento que torna o homem capaz de alcançar as alturas celestes. Quanto maior o amor fraterno, compreensivo e desinteressado, em maior sintonia com Deus o espírito se encontra.

O amor vivenciado pelo espírito evolui durante a sua caminhada espiritual, dessa forma o amor interesseiro e egoísta é lapidado pela sabedoria divina, adquirindo pouco a pouco os contornos da escultura celeste, até tornar-se sublime, puro, perfeito. Jesus é o exemplo do amor esculpido durante eras de trabalho santificado, ele está para o amor como o diamante mais belo e puro está para as pedras preciosas. Se você não consegue imaginar a expressão do amor celestial então leia o Evangelho com os olhos do coração e compreenderá.

Almas afins retornam para a vida física buscando o crescimento espiritual, trabalhando dia-a-dia para redimir os erros cometidos e quitar débitos espirituais contraídos no pretérito. Durante sua peregrinação encontra espíritos que participaram de suas alegrias ou desditas no passado e podem por um ou mais deles se apaixonar, vindo a se consorciar e até formar uma família.

Contudo, em muitos casos o amor de outra vida que reencontramos agora não faz partes dos planos espirituais para a existência atual. Podem existir necessidades diferenciadas, etapas que ainda precisam ser cumpridas, compromissos espirituais que impossibilitam a união ou simplesmente o parceiro ou parceira não compartilha dos sonhos que você idealizou.

Em muitos casos a paixão no cega e aquele que imaginamos ser o melhor parceiro é na verdade uma “mala sem alça”, que atrairá inúmeros problemas que não precisaríamos vivenciar. É possível que as frustrações amorosas de agora sejam o preparativo para o encontro com uma pessoa especial que nos aguarda ou uma grande lição de resignação e humildade, cada caso é uma história diferente que segue o roteiro das leis divinas.

Não estamos estimulando a desistência do companheiro eleito para o coração ao primeiro obstáculo que apareça, devemos fazer a nossa parte para conquistar nossos amores e mantê-los ao nosso lado, contudo, não podemos duvidar da sabedoria divina ou da vontade da outra pessoa envolvida no relacionamento. Se o rompimento aparece como uma foice a cortar a plantinha tratada com muito carinho então a melhor opção é a prece, a paciência e a confiança em Deus. O tempo e a meditação sobre as lições aprendidas permitirão a você ouvir o próprio coração e embora a situação crie a aparência de abandono e derrota, você pode retirar profundas lições e subir mais um degrau rumo à consciência interior. As noções humanas de vencedores e perdedores são deturpadas, conforme Jesus nos informou em seu Evangelho de paz e amor.

Nem sempre o ser que elegemos para os laços de união compartilha dos nossos sonhos, muitas vezes nosso desejo é tão forte que cega a visão e bloqueia o discernimento, dessa forma criamos um amor ilusório que facilmente identificaríamos como sem nenhuma perspectiva caso conseguíssemos olhar a situação de forma imparcial. Além disso, devemos refletir sobre o egoísmo e o orgulho, tempo e perspectiva. O abandono gera tristeza, que será curada com o tempo, mas não leva à vontade de exterminar a vida, será que o orgulho ferido ou o egoísmo não tem alguma influência na motivação do auto-exterminio? Você já possui tempo para amar, ou é somente uma paixão? Espíritos suicidas em comunicação relatam que nos atos suicidas existia mais paixão que amor.

Infelizmente alguns espíritos depositam no relacionamento amoroso a única forma de se tornarem felizes, plasmam em suas mentes desequilibradas um filme Hollywoodiano, acreditando que a única opção para sua felicidade está no seu companheiro. A vida não é para realização de todos os seus sonhos, mas para o seu crescimento rumo à paz divina, o seu objetivo final é angelitude, a união definitiva com o Cristo interno. As frustrações e derrotas formam o seu caráter e preparam-no para os desafios da vida. Existe um conto oriental onde uma mãe chorava a morte do filho e não conseguia se recuperar e por isso foi até um Mestre, que informou que a cura estava em uma planta que ela encontraria em uma casa onde nunca houvesse uma perda. A mãe buscou de todas as formas encontrar essa casa e após percorrer toda a aldeia descobriu que todos passam por situações difíceis, alguma perda, frustração, decepção, abandono. Eles não desistiram, precisaram de um momento para recuperação, mas continuaram e hoje trilham os seus caminhos. Você pode construir um futuro de paz, Deus lhe guiará, de alguma forma as coisas vão melhorar, se acertar, você deve confiar e não desistir. No final achará muita graça de tudo, dará boas risadas, algumas lágrimas e agradecerá pelas lições da vida.

Tudo na vida passa, são ciclos, hoje é a folha que cai, mas daqui a pouco chega uma nova estação com novas folhagens, assim é a tristeza do término de um relacionamento, podem ser necessárias semanas, meses ou até um ano, mas um dia isso acabará e você conseguirá superar mais esse desafio e continuará sua caminhada, mas para isso é necessário empenhar-se, buscar essa conquista. Não existe um mapa para superar a falta do ser querido, mas posso garantir que se você buscar o reequilíbrio não te faltará a ajuda dos amigos espirituais e de Jesus, o companheiro de todas as oras.

A vida é um lindo jardim, colorido de oportunidades redentoras, um amor que fracassa é como uma pequena planta que não conseguiu sobreviver as adversidades do ambiente, mas o jardineiro tem as ferramentas e um terreno fértil para semear outras flores.
Embora tenhamos papel crucial nas escolhas que fazemos para construção de nossas vidas, existem fatos que estão fora do nosso alcance, não podemos, por exemplo, obrigar alguém a nos amar e passar o resto de sua existência conosco. Pratica a humildade e a resignação, pois são tesouros valiosos para sua ascensão espiritual.

Se for da vontade de Deus que os corações novamente se enlacem então isso ocorrerá. Quantos casamentos terminados foram reatados! Quantos namorados se reencontraram após vários anos e acabaram por casar!

Conforme falaremos em breve as conseqüências para o suicídio são nefastas e a frustração amorosa não é justificativa para esse ato de revolta e egoísmo.Se o relacionamento te decepcionou então transforma o sentimento em luz divina para os filhos materiais e irmãos necessitados de amor, dessa forma encontrará sentido na vida e poderá sentir o amor divino percorrer todo o seu corpo.

Se desistir da busca pelo amor conjugal então compartilha o seu tempo e coração com aqueles que estão espalhados pelos asilos, abrigos de crianças e casas de deficientes, que mendigam por migalhas de amor e carinho. Dá um sentido solidário a sua vida e renova os sentimentos interiores, você estará então cada vez mais perto de Deus e conhecerá o verdadeiro AMOR.

Não acabe com sua vida hoje para sofrer conseqüências dolorosas do suicídio, você não precisa passar por isso, sempre existirá outra opção, outro caminho, Deus deseja sua felicidade e não o sofrimento por toda a existência.

Abaixo copiamos exemplos de angústia e sofrimento vivenciados por espíritos que exterminaram sua existência por motivos de frustração amorosa.

Irmão X – Estante da Vida – Francisco Candido Xavier

Aqui vai, meu amigo, a entrevista rápida que você solicitou ao velho jornalista desencarnado com uma suicida comum. Sabe você, quanto eu, que não existem casos absolutamente iguais. Cada um de nós é um mundo por si. Para nosso esclarecimento, porém, devo dizer-lhe que se trata de jovem senhora que, há precisamente catorze anos, largou o corpo físico, por deliberação própria, ingerindo formicida.
Mais alguns apontamentos, já que não podemos transformar o doloroso assunto em novela de grande porte: ela se envenenou no Rio, aos trinta e dois de idade, deixando o esposo e um filhinho em casa; não era pessoa de cultura excepcional, do ponto de vista de cérebro, mas caracterizava-se, na Terra, por nobres qualidades morais, moça tímida, honesta, operosa, de instrução regular e extremamente devotada aos deveres de esposa e mãe.
Passemos, no entanto, às suas onze questões e vejamos as respostas que ela nos deu e que transcrevo, na íntegra:
A irmã possuía alguma fé religiosa, que lhe desse convicção na vida depois da morte?
Seguia a fé religiosa, como acontece a muita gente que acompanha os outros no jeito de crer, na mesma situação com que se atende aos caprichos da moda. Para ser sincera, não admitia fôsse encontrar a vida aqui, como a vejo, tão cheia de problemas ou, talvez, mais cheia de problemas que a minha existência no mundo.

Quando sobreveio a morte do corpo, ficou inconsciente ou consciente?
Não conseguia sequer mover um dedo, mas, por motivos que ainda não sei explicar, permaneci completamente lúcida e por muito tempo.
Quais as suas primeiras impressões ao verificar-se desencarnada?
Ao lado de terríveis sofrimentos, um remorso indefinível tomou conta de mim. Ouvia os lamentos de meu marido e de meu filho pequenino, debalde gritando também, a suplicar socorro. Quando o rabecão me arrebatou o corpo imóvel, tentei ficar em casa mas não pude. Tinha a impressão de que eu jazia amarrada ao meu próprio cadáver pelos nós de uma corda grossa. Sentia em mim, num fenômeno de repercussão que não sei definir, todos os baques do corpo ao veículo em correria; atirada com ele a um compartimento do necrotério, chorava de enlouquecer. Depois de poucas horas, notei que alguém me carregava para a mesa de exame. Vi-me desnuda de chofre e tremi de vergonha. Mas a vergonha fundiu-se no terror que passei a experimentar ao ver que dois homens moços me abriam o ventre sem nenhuma cerimônia, embora o respeitoso silêncio com que se davam à pavorosa tarefa. Não sei o que me doía mais, se a dor indescritível que me percorria a forma, em meu novo estado de ser, quando os golpes do instrumento cortante me rasgavam a carne. Mas, o martírio não ficou nesse ponto, porque eu, que horas antes me achava no conforto de meu leito doméstico, tive de aguentar duchas de água fria na visceras expostas, como se eu fôsse um animal dos que eu vira morrer, quando menina, no sítio de meu pai... Então, clamei ainda mais por socorro, mas ninguém me escutava, nem via...

Recorreu à prece no sofrimento?
Sim, mas orava, à maneira dos loucos desesperados, sem qualquer noção de Deus... Achava-me em franco delírio de angústia, atormentada por dores físicas e mentais... Além disso, para salvar o corpo que eu mesma destruíra, a oração era um recurso de que lançava mão, muito tarde.

Encontrou amigos ou parentes desencarnados, em suas primeiras horas no plano espiritual?
Hoje sei que muitos deles procuravam auxiliar-me, mas inùtilmente, porque a minha condição de suicida me punha em plenitude de forças físicas. As energias do corpo abandonado como que me eram devolvidas por ele e me achava tão materializada em minha forma espiritual quanto na forma terrestre. Sentia-me completamente sòzinha, desemparada...

Assistiu ao seu próprio enterro?
Com o terror que o meu amigo é capaz de imaginar.

Não havia Espíritos benfeitores no cemitério?
Sim, mas não poderia vê-los. Estava mentalmente cega de dor. Senti-me sob a terra, sempre ligada ao corpo, como alguém a se debater num quarto abafado, lodoso e escuro...

Que aconteceu em seguida?
Até agora, não consigo saber quanto tempo estive na cela do sepulcro, seguindo, hora a hora, a decomposição de meus restos... Houve, porém, um instante em que a corda magnética cedeu e me vi libertada. Pus-me de pé sobre a cova. Reconhecia-me fraca, faminta, sedenta, dilacerada... Não havia tomado posse de meus próprios raciocínios, quando me vi cercada por uma turma de homens que, mais tarde, vim a saber serem obsessores cruéis. Deram-me voz de prisão. Um deles me notificou que o suicídio era falta grave, que eu seria julgada em corte de justiça e que não me restava outra saída, senão acompanhá-los ao Tribunal. Obedeci e, para logo, fui por eles encarcerada em tenebrosa furna, onde pude ouvir o choro de muitas outras vítimas. Esses malfeitores me guardaram em cativeiro e abusavam da minha condição de mulher, sem qualquer noção de respeito ou misericórdia... Sòmente após muito tempo de oração e remorso, obtive o socorro de Espíritos missionários, que me retiraram do cárcere, depois de enormes dificuldades, a fim de me internarem num campo de tratamento.

Por que razão decidiu matar-se?
Ciúmes de meu esposo, que passara a simpatizar com outra mulher.

Julga que a sua atitude lhe trouxe algum benefício?
Apenas complicações. Após seis anos de ausência, ferida por terríveis saudades, obtive permissão para visitar a residência que eu julgava como sendo minha casa no Rio. Tremenda surpresa!... Em nada adiantara o suplício. Meu esposo, moço ainda, necessitava de companhia e escolhera para segunda esposa a rival que eu abominava... Ele e meu filho estavam sob os cuidados da mulher que suscitava ódio e revolta... Sofrí muito em meu orgulho abatido. Desesperei-me. Auxiliada pacientemente, contudo, por instrutores caridosos, adquiri novos princípios de compreensão e conduta... Estou aprendendo agora a converter aversão em amor. Comecei procedendo assim por devotamento ao meu filho, a quem ansiava estender as mãos, e só possuía, no lar, as mãos dela, habilitadas a me prestarem semelhante favor... A pouco e pouco, notei-lhe as qualidades nobres de caráter e coração e hoje a amo, deveras, por irmã de minh’alma... Como pode observar, o suicídio me intensificou a luta íntima e me impôs, de imediato, duras obrigações.

Que aguarda para o futuro?
Tenho fome de esquecimento e de paz. Trabalho de boa vontade em meu próprio burilamento e qualquer que seja a provação que me espere, nas corrigendas que mereço, rogo à Compaixão Divina me permita nascer na Terra, outra vez, quando então conto retornar o ponto de evolução em que estacionei, para consertar as terríveis consequências do erro que cometi.

Hilário Silva

Desde o momento em que sorvera a mistura venenosa, Marina sentia-se morrer, sem morrer.
Na queria viver mais. Via-se desprezada. Acariciara o sonho de esposar Jorge e criar-lhe os filhos. Dois anos de vã esperança.
O pai costumava dizer-lhe: “Cuidado com os rapazes de hoje, nem sempre têm bom caráter”; ela, porém, achava-o antiquado e exigente. A mãe entretanto, sorria e deixava passar.
Além disso, como resistir? Jorge assobiava todas as noites. Começou pedindo-lhe livros.
- Estou em dificuldades com meu professor de latim – dissera.
E levara-lhe a gramática, voltando no outro dia para solicitar informações. Percebera a manobra, encantada. Desde então, encontravam-se noite a noite.
A princípio comentavam estudos.
Queixavam-se dos professores, criticavam colegas, embora freqüentassem instituições diferentes. Complicara-se, contudo a conversação.
Após quatro semanas de convivência, iam juntos ao cinema do bairro.
E tudo se agravou numa noite de chuva. Haviam assistido a um filme pitoresco. Uma jovem tímida, contrariada pela família, entregara-se ao rapaz, com quem fugiu, confiante.
Ninguém poderia dizer o que teria acontecido depois, mas o cinema coroara a aventura com um beijo.
Sob a marquise, pensavam no tema, mergulhando o olhar um no outro. À frente da garoa persistente, sentiam-se como numa ilha de encantamento.
- Você teria coragem de acompanhar-me num longo passeio? – perguntou ele, com intenções ocultas.
Ela corara, sem responder.
Refletia na heroína do filme. Não conseguira desvencilhar-se do braço que a envolvera.
Ele interpretara-lhe o silêncio pelo “sim”. Ela não tinha voz para dizer-lhe “não”.
Deixou-se conduzir.
Automaticamente.
Lembrava-se de tudo...
Jorge chamara um táxi. Inebriada, sentia-se deslizar no asfalto, como quem patinasse acima das nuvens. Sonhava...
Nem viu quando o moço fez sinal ao motorista.
Qual se fora um animal hipnotizado, seguiu o companheiro. Desceram.
Pingos de chuva caíam-lhe nos cabelos de menina e mulher, como se a noite compassiva desejasse apagar vulcão de sentimentos e idéias a lhe transtornar a cabeça.
Transpuseram um pequeno portão.
A pequena escada pareceu-lhe um trecho de espaço, à frente do paraíso...

Ele apertou um botão que encimava um florão da parede.
Alguns instantes de espera e abre-se a porta.
Senhora gorda e afável atendeu, prestimosa.
- Minha velha amiga – dissera Jorge, sorrindo.
E continuou loquaz, enquanto ocupavam pequena sala. A chuva apoquentara-os, e pediam abrigo por alguns minutos a fim de conversarem a sós.
A dona da casa nem de leve se surpreendera, e indicou-lhes quarto próximo.
O moço tomara-lhe a mão trêmula e arrastou-a quase. Mal teve ela tempo para relancear os olhos pelo recinto. Um belo leito de casal estava perto.
Na parede um retrato do Cristo. Que fazia ali a imagem do Cristo?
Recordou em relampagueantes pensamentos repetidas palavras maternas: - “Todos devemos orar.” Mas não dispunha de espaço mental para ocupar-se do assunto.
Jorge enlaçara-a e as horas se perderam da imaginação, como se o tempo estivesse morto.
Acordou junto dele, alta madrugada. Lembrou-se do lar, como se fosse uma rosa despetalada que devesse retornar ao jardim.
Chorou. Jorge despertara, generoso, e acalmou-a
- Tolinha, não há motivos para lágrimas.Levantaram-se, tornando à sala.
A senhora hospitaleira, embora estremunhada, tinha no rosto a calma das enfermeiras de plantão. O moço pediu chá e explicou-lhe algo em voz baixa.
Depois do chá, o táxi, chamado pelo telefone, compareceu.
A viajem de volta não apresentava o sabor da vinda. Entre os dois, agora, o silêncio.
- Conversaremos amanhã – disse Jorge simplesmente, ao deixá-la em casa.
O coração materno esperava-a.Parecia adivinhar tudo, pela inquietação que denunciava.
- Porque afligir-se, mãezinha? Mentira pela primeira vez, como passaria a mentir sempre – a chuva atrazou-nos em excesso e descansamos em casa de Jorge – afirmara, beijando-lhe a face.
E não obstante a caratonha do relógio mostrando as três horas, D.Marcília nada respondeu, suspirando fundo.
Desde essa ocasião, aparecera-lhe o outro lado da vida.
Conheceu mais de perto a residência da cancela rosada.
Conversou mais demoradamente com a mulher que velava e conheceu outras clientes do pequeno edifício.
Ao fim de quatro meses, sentira-se diferente. Tinha vertigens. Vomitava.
Jorge levou –a ao gabinete de um médico ainda jovem, que lhe deitava olhares ambíguos.
Revoltava-se diante dele, mas submeteu-se a tratamento.
Processou-se o aborto esperado. Todavia, desde então, tinha sonhos alucinantes.
Via-se perseguida por alguém. Rouquenha voz lhe gritava aos ouvidos: “Mãe,mãe, por que me mataste?” Acordava, enxugando o suor álgido, no lençol.
Queria ser mãe. Para isso, porém, precisava casar-se.
Jorge, no entanto, exigia-lhe calma. Devia terminar o curso de bacharel. Mas, nos últimos tempos, fizera-se arredio.
Contava-lhe os sonhos, perturbada. Ele ria-se e falava em consulta ao psiquiatra. Dizia-se também cansado. Estudos intensivos.
Passavam-se agora semanas de ausência. Telefonava-lhe. Pedia conselhos, rogava conforto. Ele sempre a dissipar-lhe os temores com a promessa do matrimônio.
Desde o aborto era outra. Parecia-lhe viver com o filho que não nascera. Sentia-se visitada por idéias estranhas, como vidraça clara atravessada por largo jogo de sombras.
Na véspera, buscara Jorge na esperança de mais decisivo socorro médico. E estarrecera-se. O amigo, que sempre considerara noivo em particular, estava com outra.
Apresentou-a .
- Companheira de infância – informou.
E afirmara, sem rebuço, que pretendia casar-se dentro de poucos dias.
A rival cumprimentou-a, indiferente à dor que a fulminava. Empalidecera. Jorge, sorridente, conduziu-a a pequena distância e explicou-se.
Não a amava, confessou impassível.
- É melhor terminarmos assim - falou frio - antes de mais sérias dificuldades.
Ela implorou em lágrimas.
- Dissuada-se – concluiu quase áspero.
E afastara-se, retomando o braço da jovem que sorria, tranqüila, a ignorar-lhe a tragédia.

Mundo íntimo desmoronado.
A idéia de suicídio envolveu-a de todo.
Arrastou-se de regresso a casa.
Adquiriu a substância letal.
Escreveu bilhetes.
E, pela manhã, sorvera a porção de uma só vez.
Pavorosa dor irrompeu-lhe na carne, nos nervos, no sangue, nos ossos...
Convulsões sucessivas não lhe permitiam morrer.
Entretanto, ouvia sua própria mãe gritar como louca: “Morta! Morta!”
Ouvia algazarra, nas o próprio sofrimento não lhe conferia o privilégio das discriminações.. Viu-se carregada. Dois homens colocaram-na em “vasta gaveta”, a única interpretação que podia dar ao espaço fechado de pequena ambulância.
Não apenas chorava. Rugia em contorções, mas ninguém lhe percebia agora os terríveis lamentos.
Viu-se atirada, sem qualquer consideração, de encontro ao que lhe pareceu “laje fria”. Suplicava socorro. Agitava-se.
Ninguém, no entanto, atendia aos seus apelos.
Seis homens aproximaram-se. Um deles, mais experiente, parecia conduzir outros cinco.
Queria ajoelhar e pedir-lhes a necessária assistência.
Arrependera-se. Desejava retomar o corpo e viver. Pensava no martírio dos pais. Reconhecia-se jovem ainda.
Poderia sobrepor-se à situação. Trabalharia por vencer. Nenhum dos circunstantes lhe ouvia os brados. Pareciam desconhece-la, desrespeita-la. E mais que isso, desnudaram-na.

O homem amadurecido afastou-se por minutos como quem se esquecera de trazer algum remédio a fim de ajuda-la. Dois dos cinco rapazes presentes tocaram-lhe o corpo. Beliscaram-na.
Alarmou-se, indignada ante o vexame evidente.
O mais velho, longe de garanti-la, fez mais. Tomou de um bisturi e abriu-lhe o abdômem.
- Assassinos! Assassinos! – estertorava.
Mas a operação prosseguia. Ouvia vozes. Alguém dizia: “Bela mulher!”, enquanto o cavalheiro amadurecido, em grande avental branco, falava em “cianetos” e “cheiro de amêndoas amargas”.
Um dos moços, de olhar irônico, exclamou, tateando-lhe o busto: “Porque matar-se desse modo?”
Sentindo-se em desespero total, clamava que não. Tentara o suicídio, mas recuara.
- Terminassem a operação! – pedia, em pranto, reconhecendo tratar com jovens cirurgiões em estudo.
Tinha pressa. Desejava tranqüilizar os pais, refazer a existência. Mas, em meio das sensações turbilhonárias que lhe atormentavam a alma, sentiu que continuavam a lhe cortar a carne.
Era demais. Viu-se separada do próprio corpo, como jóia que salta mecanicamente do escrínio.
E conheceu a verdade, enfim. O corpo que ela própria arruinara apresentava máscara triste.
Mãos ágeis trabalhavam-lhe as vísceras, separando material de exame necrológico.
Entretanto, ela – Marina, ela mesma – cambaleava, de pé, com todas as dores e convulsões de momentos antes...
- Mãe! Minha mãe! – clamou aterrada – quero viver! Viver!...
Outra voz, contudo, bramiu-lhe ameaçadora e sarcástica aos ouvidos:
- Mãe, minha mãe, eu também quero viver!...
Procurou com os olhos agoniados quem lhe falava, mas apenas sentiu que braços vigorosos a aprisionavam.
Lembrou, aturdida, o aborto, os sonhos, a tortura e o suicídio, e esforçou-se terrivelmente para voltar e erguer de novo o corpo tombado na mesa fria

Espírito: Hilário Silva - Psicografia: Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira.

 

 

 

 


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