A Arte e o Espírito    (O Julgamento)
22ª Parte - Antônio e a Morte da sua Filha
por Jorge Queiroz

 

CENA 40 A luz diminui no set Dr. José se retira enquanto Antonio faz o juramento, foco de luz destaca Paulo e Mariana que se entreolham preocupados.
  (Juiz acena com a cabeça para que o promotor comece).
PROMOTOR Senhor Antônio, eu queria que o senhor dissesse por que está aqui.
ANTÔNIO Eu sou o pai da menina Mariângela, que esse homem matou.
ADVOGADA
Eu protesto! Não foi provada a culpa do meu cliente!
JUIZ Protesto aceito. Senhor promotor, a testemunha tem que relatar os fatos não suas conclusões.
PROMOTOR Sim meritíssimo... Senhor Antônio vamos começar do princípio, como foi que o senhor travou o contato com o acusado?
ANTÔNIO Minha filha estava muito doente e minha esposa levou a menina para uma “consulta” com o senhor Paulo dos Santos.
PROMOTOR “Uma consulta”... sei, o senhor foi junto?
ANTÔNIO Não nas primeiras vezes, fui mais tarde.
PROMOTOR O senhor pode nos relatar o que acontecia nessas consultas?
ANTÔNIO

Era muito estranho, primeiro o seu Paulo ficava trancado num quarto com a Mariângela, depois a levava para um salão maior onde mais de uma dezena de pessoas giravam em torno dela falando coisas e fazendo movimentos com as mãos em cima da minha filha.

PROMOTOR Por que o senhor permitiu que a sua filha participasse de rituais como esse?
ANTÔNIO A princípio não permiti. A minha mulher levou a menina escondida, mas depois eu queria ver como era, porque a minha mulher jurava que ela estava melhorando.
PROMOTOR A sua menina estava realmente melhorando?
ANTÔNIO

É... Estava, mas provavelmente porque ela estava tomando os remédios que o médico havia receitado.

PROMOTOR O que aconteceu então, o que acabou levando a sua filhinha à morte?
ANTÔNIO (Emocionado) Mariângela era uma doce criaturinha, tinha apenas três aninhos, era a nossa única filha, era tudo para nós... Esse monstro maldito convenceu a mim e a minha mulher de que ela ficaria curada. Nós depositamos todas as nossas esperanças nesse charlatão. Depois de um tempo ele disse que devíamos suspender os medicamentos tradicionais e que com mais algumas sessões ela ficaria curada, nós acreditamos (Chorando). Ela mostrava alguma melhora, a levamos então, para mais uma seção. Estavam todos reunidos vestidos de branco, colocaram a minha filhinha deitada numa maca e começaram aquele ritual satânico. Todos gritavam muito numa língua que eu não entendia, jogavam um líquido sobre a cabeça da menina, estavam todos em transe. O Paulo comandava todo o ritual, fazia sinais macabros sobre o corpo da minha filha, gritava e pedia ajuda ao demônio. De repente, ele a pegou nos braços e a levantou como se oferecesse a satanás.
Ela sangrava muito, eu e minha mulher corremos para salvá-la, mas ele mandou que nos segurassem e continuou o ritual até que o sangue parasse de sair do seu corpinho... até que ela morresse... (Chorando muito) Foi terrível...! Terrível... Depois ele embrulhou o corpo dela num lençol e nos entregou para que levássemos para casa, dizendo que a sua morte não tinha sido em vão. Ele ofereceu minha filha em sacrifício. Ele entregou minha filha ao diabo. Esse homem é o próprio demônio, ele merece a morte! Morte, morte, morte...
 

(A platéia reage. O promotor incentiva a balbúrdia. A advogada protesta e o juiz pede silêncio).

ADVOGADA Eu protesto! As afirmações da testemunha são absurdas, preconceituosas e descabidas.
PROMOTOR Esse homem é um assassino! Um assassino!
JUIZ Silêncio! Silêncio!
Silêncio, senão vou mandar evacuar o recinto, silêncio!
Senhor Antônio eu gostaria que o senhor se acalmasse e que apenas respondesse às perguntas. Compreendemos a sua dor e a sua revolta pela perda da sua filha, mas não permitirei mais nenhum rompante como esse, o senhor entendeu?
ANTÔNIO

Sim, senhor meritíssimo.


Perguntas Respondidas