A Arte e o Espírito    (O Julgamento)
24ª Parte - Maria a Mãe de Mariângela
por Jorge Queiroz

 

  (Na platéia uma mulher interrompe aos gritos. É a mãe da menina)
MARIA É mentira... É mentira! Ele está mentindo, eu sou a mãe de Mariângela! (confusão no tribunal. Todos gritam).
JUIZ Silêncio! Silêncio! A assistência não pode se manifestar.
ADVOGADA Meritíssimo vamos ouvi-la, por favor. Ela pode nos esclarecer alguns fatos, ela é a mãe da menina! Eu a procurei durante semanas...
ANTÔNIO
Essa mulher está louca, ela está querendo proteger esse demônio. (Parte para cima de Paulo e é contido pelos guardas, Paulo recua para se proteger).
MARIA (Na beira do palco agarrada à advogada) Fui eu que contaminei a minha filhinha, fui eu... Eu tenho AIDS.
PROMOTOR Eu protesto! Esta mulher não está inscrita como testemunha, ela não pode falar.
JUIZ Silêncio! Silêncio! (Olha para Antônio agarrado a Paulo).Segurem esse homem, levem-no daqui!
ANTÔNIO Eu vou matá-lo! Vou me vingar de você!
PAULO Calma Antônio, você está descontrolado!
JUIZ Guardas! Levem-nos daqui imediatamente!
 

(Guardas levam Paulo e Antônio para fora do palco)

ADVOGADA Meritíssimo, meu cliente não fez nada. Por favor, vamos ouvir a mãe da menina. (Segurando Maria que chora convulsivamente)
JUIZ Silêncio! Silêncio!
PROMOTOR Eu protesto! Eu protesto!...
JUIZ

Eu exijo silêncio nesse tribunal! Senhores advogados sentem-se nos seus lugares (Falando para Maria) Minha senhora, como é o seu nome?

MARIA Meu nome é Maria de Lourdes Loyola.
JUIZ A senhora é a mãe da menina morta?
MARIA

Sou sim, meritíssimo. Aqui está a certidão.

  (Advogada pega a certidão e leva até o juiz que a lê)
JUIZ (Refletindo) Apesar de ser irregular, vou permitir que a senhora testemunhe.
PROMOTOR Eu protesto, eu...
JUIZ O senhor não protesta nada. Já tomei minha decisão.
  (A advogada ajuda Maria a subir e ir até a cadeira da testemunha)
MARIA (Jurando) Eu juro...
JUIZ

Doutora, a testemunha é sua.

ADVOGADA Dona Maria, a sua filha foi contaminada pela senhora? Como?
MARIA (Pausa longa) Eu era viciada em drogas injetáveis e devo ter contraído a AIDS usando seringas de outras pessoas.
ADVOGADA

Quando a senhora teve a sua filha, a senhora sabia que estava com AIDS?

MARIA Sabia, descobri no pré-natal, mas rezava intensamente para minha filha não tivesse sido contaminada, mas quando Mariângela nasceu, no seu exame de sangue estava lá, H.I.V. positivo.
ADVOGADA Seu marido tem AIDS?
MARIA Não.
ADVOGADA

Ele também era viciado?

MARIA Não, meu vício foi coisa da juventude, passei por muitos tratamentos até me livrar dele.
ADVOGADA Quando seu marido soube que a senhora e a sua filhinha tinham AIDS como reagiu?
MARIA (Nervosa e emocionada) Ficou revoltado! Depois do parto, Mariângela ficou internada mais de um mês no hospital e quando teve alta, ele não queria ir buscá-la, eu tive que implorar para que ele me deixasse cuidar da nossa filhinha.
ADVOGADA Ele então tinha vergonha de vocês duas por terem o vírus?
MARIA

Mais do que isso, ele tinha ódio. Ele havia sido candidato a deputado e morria de medo. Achava que, se o eleitorado soubesse, iam pensar que ele era homossexual viciado ou outra coisa qualquer e que ele era o responsável pela contaminação da nossa família.

ADVOGADA Seu marido se elegeu?
MARIA Não, mas tinha muitos amigos na política. Ele estava se preparando para concorrer de novo nas próximas eleições, por isso nos confinou num sítio distante da nossa casa. Foi lá que Mariângela contraiu infecção intestinal, a pneumonia e começaram a aparecer feridas no seu corpo.
ADVOGADA

Foi só então que a senhora procurou o senhor Paulo, quando a menina estava muito doente.

MARIA Foi. Os médicos não lhe davam mais de uma semana, então soube dos milagres que o seu Paulo estava conseguindo e fui pedir a sua caridade.
ADVOGADA E o que aconteceu?
MARIA Minha filhinha começou a melhorar. Recobrou os sentidos, voltou a comer, pararam as hemorragias, as feridas estavam secando... Foi quando meu marido descobriu quem a estava tratando, e vendo a melhora de Mariângela insistiu para ir com a gente na casa do seu Paulo. Depois do tratamento, pediu para falar com ele em particular.
  B. O.


Perguntas Respondidas