Páginas de Luz    (A Verdade e os Oito Passos para a Felicidade)
Capítulo 5 - A Óctupla Nobre Senda - Terceiro Passo: Reta Palavra
por Narcí Castro de Souza

Durante a noite caiu uma chuva torrencial. Aos primeiros raios de Sol , uma aragem fresca acariciou as faces de Devaky que extasiada ouvia o festival de chilreios emitidos pelos pássaros. As gotículas, deixadas pela chuva sobre o verde vivo das folhas, ofereciam um encantador efeito cromático ao receberem os primeiros raios de sol daquele início de manhã.

Devaky ainda retinha em sua mente a imagem do santo homem que, na tarde do dia anterior, oferecera a preciosa lição sobre o reto pensar. Ansiava pelo momento em que outra vez estariam reunidos aos pés do Senhor Buda. Percorria a trilha aberta na floresta com seu cântaro apoiado no ombro. Dirigia-se à fonte , onde apanharia a água que serviria para as necessidades do dia de sua família. Não esperava encontrar o excelso instrutor sob a árvore aquela hora da manhã, por isso foi com surpresa que escutou sua voz:

- Devaky, dê-me um pouco de água.

- Bhagavam!... Não esperava encontrá-Lo...- dizendo isto, pressurosa dirigiu-se à fonte levando a pequena cuia que o Senhor Buda lhe entregou.

- A água que me ofereces está deliciosa, mas se me pedires , se quiseres, dar-te-ei a água da Vida. Após bebê-la não mais terás sede.

- Quero. Dá-me desta água!

- Os ensinos que ofereço aos que me seguem, se compreendidos e seguidos, é a água que dessedenta o Espírito que de nada mais precisará, pois com ela receberá a Vida ofertada por Brama . Muito, ainda, tu caminharás através de outras vidas, até o dia em que poderás experimentar esta água. Digo-teisso para que tua alma o recorde, quando for outra vez solicitada a dar água a um caminhante sedento que te oferecerá outra oportunidade de entrar definitivamente no Caminho que leva à Vida .

- Se o Sri diz, acredito, mas porque não posso receber agora a água da Vida? ? perguntou Devaky, sem entender direito a mensagem.

- Tudo tem seu tempo certo. A fruta só deve ser colhida quando amadurece, pois é quando apresenta o melhor sabor. Agradeço a água Devaky, vai agora que teus familiares já despertos, aguardam-te.

Devaky pensativa, procurava entender o que o Senhor Buda lhe dissera. Não conseguindo, pensou em recorrer a Shanda , irmão de Savitri, sua amiga. Ele certamente lhe explicaria .

??

Quando o primeiro discípulo chegou ao local do encontro, junto à fonte, lá já encontrou o Senhor Buda.

Todos iam chegando e, em semicírculo, acomodavam-se silenciosos e respeitosos. O Mestre meditava de olhos cerrados .

Quando o último se assentou, Buda abriu os olhos. Um lindo sorriso se abriu em sua augusta face.

- Amados, minha alma se alegra por ter contemplado o futuro de luz que todos um dia alcançarão. Hoje vamos discorrer sobre o terceiro passo que devem dar para alcançar a felicidade: Reta Palavra.

As palavras emitem poderosas vibrações, que geram na aura de quem as profere energias que podem ser positivas e construtivas, ou não. Cada palavra gera cores, aromas e imagens. Se o homem pudesse contemplar o efeito extraordinário que as palavras provocam, seria mais cuidadoso ao proferi-las.

Através da palavra Brama creou o Universo. A sagrada palavra AUM que ressoa do Sol Central foi e é a fonte de toda vida manifestada. A palavra constrói e destrói.

- Como distinguir a reta palavra? Como nos precavermos para não pronunciarmos uma palavra destrutiva? ? perguntou Janamajaya .

- A Reta Palavra é aquela que traz a quem a escuta vibrações construtivas. Abstenhamo-nos de proferir palavras ociosas. O falar por falar gasta energias que poderiam ser utilizadas em propósitos mais nobres, críticas , maledicências sujam a aura de quem as faz e sobrecarregam com estímulos negativos a quem se critica ou maldiz. Repito: cada palavra produz uma cor , um aroma que pode ser agradável , quando construtiva ou profundamente desagradável quando destrutiva.

Imprecações, palavras pesadas são como lixo malcheiroso que se derrama na aura, atraindo entidades primitivas e agressivas que se alimentam desta energia deteriorada como o fazem as moscas , as baratas e todos os insetos indesejáveis.

Devemos sempre falar das coisas boas e não das más em relação a nosso próximo. Muitas vezes nos contam sobre atitudes ou vícios de alguém e nem sempre o que nos falam é verdadeiro. Se passarmos adiante estas informações, também estaremos incorrendo em mentiras e prejudicamos assim a pessoa em questão. Mesmo que fosse verdadeiro, estaríamos faltando com a caridade em relação a alguém que precisa ser auxiliado e não difamado. Não gostaríamos se as críticas se referissem a nós mesmos ou a alguém que amamos. Sejamos então prudentes e amorosos com nossos irmãos em humanidade para que tenhamos também o direito de receber o mesmo tratamento que estamos dispensando. Lembremo-nos da Lei do Carma: sempre retorna para nós o que fazemos a outrem.

É preferível o silêncio a um tagarelar inconseqüente. Se formos prudentes, não utilizaremos o poder da palavra proferindo graçolas ou piadas que divertem os imaturos, mas que precisam ser evitadas por aqueles que se esforçam por alcançar a emancipação espiritual.

É muito importante, também, o homem honrar a sua palavra, jamais fazendo promessas que não tenha intenção de cumprir ? e quando prometer, se esforçar para cumprir.

- Bhagavam , se soubermos de algo que desabone alguém e verificarmos que uma terceira pessoa poderá ser prejudicada se não a advertirmos. Como proceder? ? perguntou Shanda.

- Nesse caso, temos o dever de advertir a pessoa que poderia ser prejudicada, porém lembremos sempre de não ultrapassar nosso limite. É importante sempre termos em mente: proceder com o outro como \ gostaríamos que procedesse conosco.

- É comum nos queixarmos quando alguém ou algo nos incomoda. Sentimos necessidade de desabafar com um amigo o que muitas vezes está sendo difícil e penoso suportarmos sozinhos. Isto, também contraria a regra da reta palavra?

- Sei que para a humanidade comum é muito difícil abster-se das queixas, justificadas ou não. O objetivo de quem quer se elevar espiritualmente e alcançar a verdadeira felicidade, é fazer um esforço constante de auto- aprimoramento. Brama, nosso Pai Maior, deve ser a quem devemos dirigir nossos pensamentos, pedindo força e sabedoria para suportarmos as pressões do dia a dia, isso inclui as queixas que devemos evitar. Se assim procedermos, não sobrecarregaremos nosso próximo com nossas lamentações e poderemos perceber que o alívio será muito mais profundo. Obteremos a resistência e coragem para superarmos o desconforto da pressão que estivermos sofrendo.

Se utilizarmos a nossa palavra de forma amável, com o intuito de encorajar, agradecer, estimular, construir, estaremos fazendo uso do poder da palavra de forma correta ? encerrou o insigne Instrutor.


Devaky, conhecida, em vida posterior a esta, como a Samaritana, encontrou com o Cristo no poço de Siloé, duas vidas mais tarde.

Perguntas Respondidas