A Arte e o Espírito    (O Julgamento)
11ª PARTE ? 1ª TESTEMUNHA. O PIANISTA NO TRIBUNAL.
por Jorge Queiroz

 

CENA 26 ACENDE-SE A LUZ NO CENTRO DO PALCO.
  Além das outras personagens que já estavam no tribunal, surge agora o pianista como testemunha, o promotor o inquire. Mariana a mentora também está em cena.

PROMOTOR O Senhor Bruno Cordeiro de Almeida, o senhor confirma que pagou U$ 50.000 pelos serviços prestados numa intervenção cirúrgica, realizada para retirar um tumor no seu braço direito?
BRUNO Confirmo! Eu paguei U$ 50.000.
  (Som de burburinho da platéia)
PROMOTOR (Colocando-se junto a Paulo) Sr. Bruno, se a pessoa à qual o senhor pagou os U$ 50.000 estiver nesse tribunal, eu gostaria que o senhor a identificasse para os senhores jurados.
BRUNO (Bruno aponta para Paulo) Foi a ele que eu paguei os U$ 50.000 (A platéia reage).
PROMOTOR Eu gostaria que constasse nos Autos que a testemunha identificou o réu Paulo dos Santos.
JUIZ Silêncio!
  (Durante a balburdia diminui a luz no set apenas um foco destaca Mariana impondo as mãos sobre a advogada)
ADVOGADA Senhor juiz, posso inquirir a testemunha agora?
  (Acende a luz no set)
JUIZ Senhor promotor, o senhor já terminou?
PROMOTOR Sim, Meritíssimo. O que eu queria caracterizar além do exercício ilegal da medicina era de que o réu usufruiu de pagamentos com se fora um cirurgião formado e estabelecido.
JUIZ A testemunha é sua, advogada.
ADVOGADA (Aproximando-se da testemunha) Senhor Bruno, quanto tempo faz que o senhor foi operado pelos... amigos... Do sr. Paulo?
PROMOTOR Protesto meritíssimo! Em nenhum momento a testemunha afirmou que tenha sido operada pelos.. amigos ou ...fantamas e sim pelo réu Paulo dos Santos!
JUIZ Protesto aceito. Doutora refaça a pergunta.
ADVOGADA Tudo bem... Senhor Bruno, quanto tempo faz que foi realizada a cirurgia onde o senhor Paulo atuou?
BRUNO Um ano mais ou menos.
ADVOGADA A cirurgia foi bem sucedida, o senhor ficou curado?
PROMOTOR Protesto! Não estamos aqui para julgar a saúde da testemunha e sim o ato ilegal exercido pelo réu!
JUIZ Protesto indeferido! O senhor deve responder à pergunta.
BRUNO (Emocionado) Fiquei sim. O tumor foi retirado e o movimento do meu braço direito voltou completamente.
ADVOGADA Senhor Bruno, a quem o senhor atribuiu o bom resultado dessa cirurgia? O senhor crê que um torneiro mecânico tivesse habilidade suficiente para remover um tumor que médicos especialistas não tiveram coragem de remover?
PROMOTOR Protesto novamente! A testemunha não é um médico habilitado para dar um diagnóstico como esse.
JUIZ Protesto aceito. A senhora reformule a pergunta, por favor.
ADVOGADA Senhor Bruno, como o doente em questão, na sua opinião o senhor ficou bom graças a quem?
BRUNO A Deus e ao espírito que me operou.
PROMOTOR Protesto!
JUIZ O senhor protesta o quê? É a opinião da sua testemunha? Pode prosseguir doutora.
ADVOGADA Senhor Bruno, depois da intervenção, que na sua opinião foi "divina", o senhor esteve com o senhor Paulo outras vezes?
BRUNO Sim, estive. Quatro meses depois, eu e minha mulher fomos para agradecer, afinal não foi preciso cancelar nenhum concerto e não tive prejuízo nenhum.
ADVOGADA O senhor esteve na casa do senhor Paulo?
PROMOTOR Protesto! Eu...
JUIZ Protesto indeferido! Pode responder.
BRUNO Sim, estive
ADVOGADA Era a mesma casa que a sua esposa esteve antes da cirurgia?
BRUNO Não, ela disse que não era a mesma casa.
ADVOGADA E como era a casa? Isto é, era uma casa luxuosa? Com muitos quartos, ricamente mobiliada?
BRUNO Era uma casa confortável tinha de tudo do bom e do melhor, aparelhos eletrônicos, ar condicionado, mas tinha apenas três cômodos, com um grande galpão no fundo coberto por telhas de plástico.
ADVOGADA Havia algum carro na garagem.
BRUNO Sim. Ele até nos emprestou o carro para que procurássemos um hotel. Era um carro vermelho moderno, sujo de sangue parece que também servia como ambulância.
ADVOGADA O senhor tem conhecimento de quem era a propriedade em que o senhor Paulo residia?
BRUNO Tenho. A casa e o galpão que havia sido construído recentemente, onde o Paulo atendia aos doentes, estava no nome de uma fundação; Fundação Bezerra de Menezes, que ele presidia. Ele nos mostrou a escritura.
ADVOGADA Para finalizar senhor Bruno, o senhor atualmente está dando concertos? Continua tocando piano?
BRUNO Não.
ADVOGADA O senhor poderia nos dizer por quê?
PROMOTOR Protesto! A situação atual da testemunha não é relevante.
ADVOGADA É sim, Meritíssimo, eu quero entender por que uma pessoa que só recebeu benefícios do réu, vem aqui como testemunha da promotoria e não da defesa.
JUIZ O senhor deve responder.
BRUNO Eu... não estou podendo tocar porque... me surgiram outros tumores, sendo um no braço esquerdo.
ADVOGADA E o senhor procurou o senhor Paulo? O quê ele disse?
BRUNO (Com raiva) Que não poderia me ajudar! Que era... câncer e que eu teria que aprender a conviver com ele. Que mesmo que me operasse, outros tumores poderiam nascer! Eu não posso viver sem tocar, eu prefiro a morte (chorando), eu implorei e ele disse que não podia fazer mais nada, que devia me conformar, que eram coisas ... do passado.
ADVOGADA O senhor lhe ofereceu mais dinheiro?
BRUNO Sim. 100, 200, 500, um milhão de dólares!
ADVOGADA E o quê ele disse?
BRUNO (Chorando com raiva) Que o dinheiro não me compraria a saúde. Que minha doença estava na alma e não apenas no corpo. Se eu quisesse doar era problema meu, a Fundação era carente, mas que a minha missão agora era outra, que eu devia ensinar o que aprendi. Não sou professor, sou um pianista, foi Deus quem me deu esse dom, ele não pode me tirar agora. Eu preciso da minha música, ele tem que me operar! Tem que me curar! Ele me abandonou, me privou do que é mais sagrado... da minha música... a minha música... (chorando desesperadamente)
PROMOTOR Eu protesto... Eu protesto! Isso é irregular, protesto!


Perguntas Respondidas