A Arte e o Espírito    (O Julgamento)
Oitava Parte - Início do Julgamento. A Acusação.
por Jorge Queiroz

 

CENA 20 ACENDE-SE A LUZ NO LADO DIREITO DO PALCO.
  O delegado e o carcereiro conversam. Eles continuam com os rostos escondidos.

DELEGADO (Exaltado) Um demônio! Esse homem é um demônio. Ele deveria estar morto, mas como sobreviveu vamos levá-lo de volta para a cadeia e trancafiá-lo à sete chaves. Nunca mais vai enganar o povo e nem matar ninguém com a sua bruxaria.
CARCEREIRO Antes de prendê-lo, em definitivo vamos ter que provar a sua culpa.
DELEGADO Não será difícil, todos ficarão comovidos com a dor de uma família que perdeu uma criança.
CARCEREIRO Mas será o suficiente para condená-lo para o resto da vida?
DELEGADO São tantas as acusações que se no Brasil tivesse a Pena capital não duvido nada que ele fosse condenado à pena de morte.

B.O.
CENA 21 ACENDE-SE A LUZ NO CENTRO DO PALCO.
  Os objetos de cena reproduzem um tribunal de júri popular. Ao centro o juiz, ao seu lado esquerdo a cadeira da testemunha, na vertical do lado esquerdo está Paulo e sua advogada de defesa. No lado oposto (lado direito) o promotor, os jurados são a platéia.
PROMOTOR Pena de Morte! Isso mesmo que vocês ouviram! Eu peço a pena de morte! mas como no Brasil não temos essa medida higeanizadora, eu peço a pena Máxima! Máxima. Não podemos mais permitir que aventureiros, demônios coroados com auréolas de santos enganem a credulidade pública. (Falando para a plateia) Meus amigos, o que vamos ouvir aqui hoje são relatos horripilantes da vida de um homem sem caráter, completamente desprovido dos nobres valores morais que norteiam a nossa sociedade. Um homem que se aproveitou do sofrimento alheio, da falta de instrução de um povo, da crença de que ele poderia ser Deus produzindo milagres e mais milagres. Vejam só, meus amigos, (aponta para Paulo) esse homem usou de artifícios para enganar, ludibriar, exercendo urna profissão para a qual não foi habilitado nos bancos acadêmicos.
Esse homem fingiu-se de médico e com isso levou à morte uma menina, uma tenra menina de três anos de idade. Uma menina que tinha pela frente toda uma vida de esperança, uma vida de alegrias, uma vida de amor junto de seus pais, que por ignorância, por desespero talvez, permitiram que esse monstro realizasse com ela rituais satânicos, até que ela não resistiu e finalmente morreu. Esse homem não é digno de conviver entre nós, ele tripudiou com que existe de mais sagrado no ser humano: a dor... (Emocionado) a dor de uma mãe e de um pai... É por isso senhores e senhoras, que eu peço para ele, esse monstro, a pena de morte! Mas como ainda não é possível, peço a prisão perpétua para esse assassino.
  (Da platéia, atores espalhados gritam, criando um clima de balbúrdia no tribunal. As suas vozes são somadas as vozes gravadas).
PLATÉIA Morte ao bruxo! Fogueira para ele! Monstro vamos matá-lo! Vamos trancá-lo pra sempre.
Vamos trancá-lo para sempre.
  (Paulo levanta-se da cadeira e grita desesperado)
PAULO Sou inocente, eu sou inocente! Tudo o que fiz foi tentar ajudar essa menina... (chora emocionado).
  (O juiz tenta interromper a confusão).
JUIZ Silêncio! Silêncio!
  (No meio da balbúrdia total a luz diminui)


Perguntas Respondidas