Lições de Vida    (Lições de Vida)
Frutificar no Amor Divino
por Flávio Brito

Certo dia, estava eu em um jardim, aguardando o começo da missa de domingo, quando percebi a presença de formosa moça alvoroçando meus sentidos. Ela é filha do Comendador, brilhava ao sol como copo de leite que balança ao sabor do vento em uma noite de verão.

Fiquei sem jeito de me aproximar de tamanha beleza, já que era um simples moço a cidade, criado na roça e não detinha nenhum dote ou bem para apresentar ao pai daquela beldade.

Foi quando nossos olhares se entrelaçaram, fixados como imã sem saber o que nos ligava de tão especial.

Ela aproximou-se fazendo que não quisesse, mas também desejando estar a meu lado,

Eu disse: - Senhorita Elisabeth, bom dia, me chamo Lucas, como vai?

- Bem, ela respondeu, e o senhor?

- Agora melhor, respondi quase sem ar, pois meu coração tal como cavalo em disparada, não me deixava concentrar esforços em parecer calmo.

Tomei a liberdade de convidá-la para passear nos jardins da igreja, foi quando ouvimos o vigário da paróquia de São Pedro chamar-nos para a missa.

Durante aquela missa nos olhávamos sempre, certos de estarmos ligados de alguma forma misteriosa, sem sabermos quem ou porque de repente nos unia.

Ao término da missa ela saiu com seus pais sem ao menos se despedir de mim. Fiquei sem entender, mas acredito que seja por conta de seus pais que não a deixariam noivar com um "sem eira nem beira" ainda mais mestiço.

Durante a caminhada até minha casa, refleti sobre a tamanha sandice que seria enamorar tamanha belezura, foi quando, ao chegar a casa, minha avó, pronta como sempre aconselhou-me mesmo sem saber do acontecido.

- Menino, cuidado! Amor é fogo e arde, provoca insônia e felicidade, mas pode trazer tristeza mais tarde.

Como um vidro de licor não consegui esconder de minha benta avó os meus sentimentos. Foi quando relatei minhas intenções a respeito daquela senhorita cujo objetivo de casar não saía de minha cabeça, minha doce mãe velha, pôs-se a orar.

- Que Deus abençoe teus caminhos, que tu provoques sempre o bom ânimo naqueles que te merecem companhia. Jesus nosso Pai te cubra com seu manto e te torne invisível aos teus inimigos.

A essa altura fiquei feliz pela reza, mas ao mesmo tempo intrigado, pois não havia até aquele momento obtido inimigos em minha vida. Já possuía 21 anos e me encontrava pronto como homem para a lida e a responsabilidade em assumir um casamento.

Furtivamente, tentava encontrá-la, mandava bilhetes que carinhosamente eram respondidos, garantindo-me esperança naquela relação que outrora poderia parecer socialmente impossível.

Determinado, fui até o senhor Justo, pai da lida Elisabeth tentar explicar meu amor por sua filha, mas recebi incompreensão e até ferocidade, pois como aquele biju tratado a linho e pão-de-ló poderia ser desposada por um sem ninguém como eu.

Tente argumentar, mas foi em vão, passei dias e noites sem saber o que fazer, pois aquela senhorinha não saía de minha mente, nem o perfume de suas cartas.

Atônito, deixei até de me alimentar com regra, fui advertido por minha avó:

- Filho quero teu bem, mas não é moça para ti. Ela faz e encanta olhos dos homens pelo brilho de sua pele, mas traz em si sentimento de vingança sobre os homens da terra.

Pela primeira vez, faltei ao respeito com minha avó, dizendo que isso não era possível, pois que moça poderia ter tamanho fardo e ser tão bela. Minha avó respondeu:

- Às vezes atrás da planta de flor bela encontramos o veneno que mata ou paralisa. Se comermos do fruto morreremos, se bebemos do chá adoecemos.

Indaguei à minha avó como ela poderia saber disso em relação à Elisabeth, pois nem a havia visto. Minha avó sem explicar muito pediu que refletisse sobre suas palavras e que a garantisse procurá-la quando estivesse mais calmo. Assim fiz, procurei Elisabeth uma semana depois. Foi quando a vi lançar olhares para outro, esse sim, abastado e de família real.

Não contive o ódio em meu coração. Como pôde fazer isso comigo? Eu era seu pretendente, trocamos juras de amor nas cartas que escrevemos um ao outro.

Tomei coragem e fui até lá. Firmei propósito em tirar a limpo aquela situação. Estava disposto a tirá-la da casa dos pais e me sacrificar para dar de um tudo, que até o momento nem eu tinha.

Mandei uma mensagem pela mucama da senhorita para que me encontrasse às seis da tarde, próximo à mangueira junto a senzala dos escravos.

As seis estava eu lá pronto para tirar a limpo aquela situação. Foi quando de repente aparece a mucama, aflita em me mandar embora, dizendo que a sinhazinha não queria me ver e nem teve, nem queria ter mais nada comigo. Fiquei rubro de raiva, voltei para casa a galope, parecia louco com aquela situação, minha raiva subia a cada minuto, pois como podia, ora juras de amor, ora me expulsava daquele jeito.

Aquela noite parecia não ter fim. Fixo na obsessão do pensamento, nada mais importava, por mais que quisesse, o desprezo me consumia.

Amanheceu o dia e fui ordenhar as vacas para tirar o leite para o café. Meu pai já estva desperto e me vendo assim, perguntou-me:

- É dor de amor, não é?

Disse, dói e dilacera meu coração. Não sei se resisto. Meu pai pensou como se quisesse dizer algo muito importante e era. Ele disse:

- Meu filho, amor quando é fruto do bem é chama que arde sem queimar, é água que banha o fogo sem apagar. Sofrer por amor correspondido é semente de árvore frondosa que está para nascer, mas sofrer sem correspondência é luz sobre a demência. É treva em dia de sol, Tira o juízo do homem, lança a mulher na vida. Abandonar o raciocínio garante a perdição. Querido filho, já és homem. Deve lutar pelo seu ideal, mas toma cuidado, contemplar o mal é perdição garantida até para aqueles de bom coração.

Aquelas palavras de meu pai foram como ducha fria de cachoeira. Nunca havia estado daquele jeito e não saberia viver sem olhar Elisabeth. Foi aí que pedi a Deus que se ela tivesse no meu destino, nós haveríamos de nos encontrar.

- Ah! Elisabeth! Como poderei viver sem ti?

Dediquei-me aos trabalhos da fazenda e esqueci temporariamente daquela mulher com ares de menina que tanto mexia comigo. Os dias foram se passando, as noites chegando cada vez mais rapidamente e a imagem de Elisabeth foi se apagando como poeira varrida pelo vento de minha mente.

Numa manhã de julho, recebo a notícia de um tropeiro que, em busca de água para seu animal, apareceu na porta de nossa casa.

- Souberam do acontecido com a filha do Comendador? Aquela que lançava olhares para todos?

Por um momento a visão de Elisabeth me voltou à mente e enraivecido, indaguei - Desembucha, o que houve?

- Ela, ao sair da missa, foi parada por um homem, que gritando disse que se ela não poderia ser dele, não seria de mais ninguém, e a alvejou com dois tiros, deixando a todos espantados, pois ainda estavam em solo divino.

Por um momento, minhas idéias não sincronizavam. Parecia peça de carro de boi pronta para soltar na estrada. Perguntei ao tropeiro: - Mas senhor, ela está bem, não está?

O homem sem muita esperança respondeu:

- Só se for no céu, ou sei lá para ela foi. O enterro sai amanhã. O Comendador quer esconder a vergonha varrendo a história para baixo do tapete.

- Obrigado senhor pelas informações. Desejais mais algo?

- Não, muito obrigado, meu rapaz. Os animais estão bem e vou seguir viagem, peço que guardes esta carta e que abras somente daqui a três dias de minha partida.

Aceitei a carta sem entender que mistério poderia nela conter.

Na manhã seguinte entra pela soleira da porta, cheia de cerimônia Ritinha, filha de um colono da fazenda ao lado.

- Entre Ritinha, quer ter um dedo de prosa com minha avó?

- Sim, quero sim. Preciso aconselhar-me com ela sobre assuntos de mulher.

Achei estranho e fui indicando o caminho para que ela fosse de encontro à minha avó. Minha avó era um tipo de conselheira da região, na verdade a achava muito mais que isso, ela era uma verdadeira santa, pois cuidou de mim e de meu pai após a morte de minha mãe, falecida por uma picada de cobra.

- Vó, a Ritinha quer falar com a senhora.

- Entre minha filha, fique a vontade.

A luz do sol entrava pela fresta da janela iluminando a pele cor de jambo daquela cabocla. Fiquei sem saber, pois estava a pouco tempo louco por Elisabeth e agora via Ritinha com olhos de bem querer. Eu e Ritinha regulávamos a mesma idade, talvez eu tivesse uns dois anos a mais.

Ritinha começou a vir todos os dias procurar vó Rita, aconselhando-se em prosa que durava horas. Quando percebi, nem me lembrava mais de Elisabeth. Somente Ritinha enchia meus olhos.

Passados três dias resolvi abrir a carta que o tropeiro deixara para mim, e nela estava escrito:

- "Filho sou teu anjo guardião, passei aqui na forma de tropeiro para que desses mais valor a comunicação que te fiz, Apresento-te Ritinha, boa moça, respeitosa e bondosa, possuidora de grande coração.

Como estivestes em grande confusão mental, instruo tua avó para que a aconselhe a manter firme a decisão de te desposar.

Afasta-te das belezas traiçoeiras, pois retira do homem o senso prático de caminhar e bloqueiam o raciocínio.

Queria para ti, a contemplação da beleza pura e infinita, capaz de tranqüilizar o coração mais agitado.

Vá filho, siga com fé. Pois, Deus me mandou para te avisar. Poderias ser tu o homem que por desatino cobiçou aquela que distribuía lascivamente encantos sem se encantar.

Sois justo e bondoso. Mereces alguém que possas confiar.

Sei que hoje já olhas Ritinha com olhos de marido, seja feliz.

Um forte abraço do Teu Amigo Protetor."

Fiquei sem saber se pulava de alegria, se pedia Ritinha em casamento ou mostrava a carta a minha avó.

Relendo a carta, fui até a casa de Ritinha e falei com seu Jorge, o pai da moça, que queria desposá-la. Todos se entreolharam, pois me viam como um filho, no máximo um afilhado. Ritinha, olhando pela fresta da porta foi convocada pelo seu pai, que indagando como quem já acusa, quis saber se nos encontrávamos no capoeirão da fazenda.

Eu nem deixei que ela respondesse, expliquei ao seu Jorge que tinha há algum tempo admiração pela sua filha e queria dar-lhe vida melhor e que jamais havíamos trocado qualquer opinião a respeito deste assunto.

Ritinha foi logo dizendo que aceitava, tal como moleca travessa começou a dar pulos de alegria. Alegria esta sentida por todos em sua casa.

Hoje, tenho 50 anos, três filhos e dez netos. Ritinha é a senhora Rita, substituta de minha avó, que já partiu no que diz respeito aos conselhos. Sou feliz com meu destino e contemplo a beleza desta cabocla todos os dias de minha vida.

G. R.


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