História
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Título
O vencedor
Data Publicação
07/03/2002
Texto

Observava umas criancinhas de cinco ou seis anos de idade

jogando futebol. Apesar da pouca idade elas levavam o jogo a

sério. Eram dois times,com técnicos, uniformes e os pais

acompanhando a partida. Como eu não conhecia nenhum dos

dois, pude desfrutar do jogo sem ficar ansioso

na expectativa de saber quem venceria. Quem dera que os pais e os

técnicos tivessem feito o mesmo!

Os dois times eram bem treinados, e vou denominá-los

Time Um e Time Dois.

No primeiro tempo não houve gol. As crianças eram engraçadas

demais. Desajeitadas e desesperadas para chutar a bola como só

as crianças conseguem fazer. Elas tropeçavam nos próprios pés, na

bola, erravam os chutes, mas nem ligavam, porque estavam se divertindo!

No segundo tempo, o técnico do Time Um retirou aqueles que deviam

ser os melhores jogadores e colocou os reservas. Só deixou o melhor

jogador, e na posição de goleiro.

O jogo deu uma virada significativa. Acho que até quando você tem

só cinco anos de idade, vencer é importante, porque o técnico do Time

Dois não mexeu no time, e os reservas do Time Um não eram páreo

para eles.

O Time Dois se juntou em cima do rapazinho no gol. Ele era um ótimo

atleta pela idade, mas não conseguia dar conta de três ou quatro outros

meninos tão bons como ele.

E o Time Dois começou a marcar. O goleiro ali sozinho se dedicou de

corpo e alma. Pulava com tudo na frente da bola, bravamente tentando

detê-las.

Quando o Time Dois marcou dois gols, um atrás do outro, o menininho

ficou furioso. Começou a dar uma de louco, gritando, correndo e pulando

para salvar a bola. Com toda a sua força ele finalmente conseguiu cobrir

um dos meninos que se aproximava da trave. Este, porém, passou a bola

para outro jogador, a uns 6 metros de distância, e quando o goleiro

voltou para sua posição, era tarde demais. Marcaram o terceiro gol...

Logo detectei os pais do goleiro. Eram pessoas simpáticas e de boa

aparência. Dava para ver que o pai, ainda engravatado, fora direto do

serviço para o jogo. Como eles torciam para o filho! Fiquei totalmente

absorto observando o menino no campo e os pais na lateral. Depois do

terceiro gol o menininho se transformou. Viu que não adiantava mais,

que iam perder. Não desistiu, mas ficou sossegado e ao mesmo tempo

desesperado.

Estampava no rosto o sentimento de que qualquer coisa que fizesse

seria em vão.

O semblante do pai também mudou. Até então ele incentivara o filho

a se esforçar mais, berrara conselhos e palavras de ânimo. Mas mudou e

ficou ansioso. Quis dizer ao menino que devia agüentar firme, mas doía

perceber o que o filho estava sentindo.

Depois do quarto gol, eu sabia o que aconteceria, pois já vira isso. O menininho

precisava desesperadamente de ajuda, mas não havia ninguém para ajudá-lo.

Agarrou a bola depois do gol e a entregou ao árbitro, depois chorou. Ficou ali

parado com as lágrimas escorrendo sem parar nas suas duas bochechinhas.

Ajoelhou-se desanimado, e foi aí que o pai entrou no gramado. A esposa,

tentando segurá-lo, puxava o seu braço dizendo para não fazer aquilo, que

constrangeria o filho. O pai, porém, desvencilhou-se e correu para o

campo, apesar de ser proibido, pois o jogo ainda não terminara. De terno e

gravata, com sapatos sociais, ali, todo arrumado, ele entrou no campo e

segurou o filho nos braços para todos verem que era o seu filho.

Abraçou e beijou o menininho e chorou junto com ele! Eu nunca senti tanto orgulho

de uma pessoa na minha vida como senti daquele pai.

Ele retirou o filho do campo, e quando chegaram à lateral, ouvi-o

dizer:

Filho, estou muito orgulhoso de você. Você foi ótimo! Quero mostrar a

todos que você é meu filho.

Papai, disse o menininho ainda chorando. Eu não consegui

segurar a bola.

Eu tentei, e tentei, mas eles não paravam de marcar gol

em mim.

Marquinho, não importa quantos gols eles fizeram. Você é meu

filho e estou orgulhoso de você. Quero que volte para terminar a

partida. Sei que quer desistir, mas não pode. Você vai levar mais gol,

mas não importa. Vá pro campo assim mesmo.

Foi visível a diferença que isso fez! Quando você está sozinho, levando

gol, sem conseguir segurar a bola, é vital ter a certeza de que para

aqueles que o amam, isso não tem a mínima importância. O garotinho

correu de volta para a sua posição. O Time Dois fez mais dois gols, mas

tudo bem.

Eu levo gol todos os dias. Esforço-me tanto! Jogo-me em todas as

direções, berro e vocifero. Dedico-me de corpo e alma. As lágrimas

começam a escorrer pelo meu rosto e eu me ajoelho, sentindo-me

completamente indefeso.

Mas o meu Pai vai direto ao campo, na frente da multidão, na frente do

mundo que escarnece e ri de mim, e me pega no colo.

Ele me abraça e diz:

Estou muito orgulhoso de você! Você se saiu otimamente bem. Quero que

todos saibam que é Meu filho. E, como sou Eu que decido o jogo, declaro

você o vencedor!