História
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Título
As Quatro Bolas
Data Publicação
11/07/2002
Texto

Era uma vez, no país de Vindhya, para além das Sete Montanhas, um homem

chamado Ganesha, de boa casta, que tinha quatro filhos. Quando os filhos

já estavam crescidos, em plena adolescência, florindo fortes e sadios, o espírito

do pai começou a desdobrar de inquietações e incertezas.

Notou que cada filho tinha um feitio e esse feitio diferia radicalmente dos feitios de

seus irmãos. O mais velho era caladão, descoroçoado de tudo, sem ânimo para

trabalhar, sempre tímido e combalido para as coisas mais belas e banais da vida.

Mostrava-se o segundo cheio de manias, e quando se agarrava, teimoso, opiniático,

a uma idéia, não a deixava; sempre incorrigível, surdo aos conselhos e advertências,

O terceiro, inteligente, hábil e industrioso, esforçava-se por prosperar na vida,

O quarto, finalmente, revelava-se arrebatado, violento, impulsivo e desonesto;

queria, em tudo por tudo, ilaquear o amigo e esbulhar o companheiro.

Impressionado com aquela inexplicável diversidade de gênios observada entre

os adolescentes, o cauteloso Ganesha foi procurar um sábio e vetusto Agostya,

eremita de incontáveis virtudes, apontado entre os eleitos, e consultou-o:

Tenho, senhor, quatro filhos. Foram por mim educados da mesma forma, com

exemplos idênticos e orientados por iguais ensinamentos.Eu e minha esposa

tratamos os nossos filhos com bondade, conduzindo-os, sem asperezas, pelo caminho

do Bem e da Virtude. E agora que estão crescidos, prontos para a vida, o que vejo?

Cada um deles tem um temperamento, um caráter, um gênio. Um é meigo e bondoso;

manifesta-se o outro grosseiro e mau; um deseja progredir, prosperar, auxiliar seus

amigos, ao passo que o outro é vadio, desinteressado de tudo, molengo.

Como se explica isso, douto brâmane, como se explica essa diferença entre criaturas

que beberam a mesma água, comeram o mesmo arroz, viveram sob o mesmo teto

e ouviram as mesmas preces e conselhos?

O sábio Agostya, o Compassivo, levou o deprimido pai a uma sala ampla, de paredes

cor de barro. Havia nessa sala apenas uma mesa quadrada, tosca, de ferro; e, sobre

a mesa, estavam colocadas quatro bolas escuras.

Pousou o sapiente eremita a mão no ombro de Ganesha e assim falou com voz mesurada:

- Está vendo, meu amigo, aquelas quatro bolas? Repare bem. Observe-as com atenção.

São rigorosamente iguais na forma, no tamanho, na densidade e na cor.

Tem alguma dúvida? Todas as quatro encerram o mesmo peso. As quatro bolas

parecem perfeitamente iguais. Não acha?

- Sim, tudo é certo - concordou o velho Ganesha, depois de sopesar as quatro bolas e

revirá-las nas mãos.

- Poderei jurar, pela sombra dos deuses, que estas quatro bolas são iguais.

Pois bem - tornou o sábio - as aparências enganam. Enganam os mais atilados e os

mais precavidos. Atire uma a uma, com a mesma torça, com o mesmo impulso, as

quatro bolas de encontro àquela parede.

O pai atirou a primeira bola; e esta, com o choque, achatou-se, esborrachou-se e

caiu disforme ao pé da parede.

Tomou, a seguir, a segunda bola e arremessou-a à parede, exatamente como

fizera com a primeira.

A segunda bola, ao chocar-se com a parede, ficou pregada no lugar em que havia

batido e dali não se desprendeu mais.

Coisa bem diversa ocorreu com a terceira bola. Esta ao ser lançada, como as anteriores,

bateu na parede e saltou de novo, perfeita, como se fosse movida por estranha mola

segura e firme.

A quarta e última bola, arrojada à parede, deu um estalido forte e fragmentou-se

em vários pedaços que saltaram para todos os lados. Um desses fragmentos

poderia ferir quem estivesse ao seu alcance. Tudo, no caso, parecia incender mistério.

- Essas quatro bolas concluiu o judicioso discípulo de Rama são precisamente como

os filhos do mesmo pai. Perecem iguais, deviam ser idênticos, mas cada um deles

tem um caráter, um feitio. A primeira bola, que bateu na parede e caiu como um molambo,

é o filho inútil, moleirão; representa a segunda bola, agarrada à parede, o filho

teimoso, obstinado, cabeçudo, que não atende a nada e não quer obedecer a ninguém;

a terceira bola é o filho prestativo e bom que salta radiante para voltar às mãos do pai e

servir de novo; a quarta e última bola é a imagem do arrebatado, o desmancha-prazeres,

violento, impulsivo. Pode o homem buscar tesouros e colher sabedoria por todos

os cantos do mundo, mas só a verdade de Deus é que fica em seu coração.